segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Editorial


Localizada no Estado do Amapá no município homônimo, a Base Aérea de Amapá fica distante cerca de 302 km da capital, Macapá, e 9 km da sede municipal. Foi construída durante a II Guerra Mundial, como base de apoio aos Aliados na luta contra o nazi-fascismo, permitindo o abastecimento de aviões norte-americanos com destino à África, que levavam ajuda aos aliados como Inglaterra e União Soviética. A Base Aérea de Amapá integrou uma rede de bases - a Rota Aérea do Atlântico Sul - que começava em Miami, passava pelo Caribe, Guianas e Norte-Nordeste do Brasil, e prosseguia pelo continente africano até o Oriente.


Na história da Base Aérea de Amapá chama a atenção o fato de que os trabalhos para sua construção iniciaram em março de 1941, antes, portanto, da entrada dos Estados Unidos e do Brasil no conflito mundial, dezembro de 1941 e  agosto de 1942, respectivamente. Ainda na postura de neutralidade, o presidente Vargas autorizou (Decreto-Lei Nº 3.462, de 25 julho de 1941), a construção e ampliação de bases aéreas e navais em Amapá, Belém, São Luiz, Fortaleza, Natal, Recife, Maceió e Salvador, pela Panair do Brasil (subsidiária da Pan Americam Airways). As bases foram cedidas aos Estados Unidos para uso militar e devolvidas ao governo brasileiro após a guerra. 

Além do apoio às aeronaves norte-americanas, a Base Aérea de Amapá também foi importante na guerra antissubmarina. Os dirigíveis conhecidos por zepelins (ou blimps) que lá pousavam, participavam do patrulhamento da costa brasileira. Durante a guerra, dois submarinos alemães foram afundados no litoral amapaense em julho de 1943. Os blimps também foram utilizados em comboios de navios e operações de resgates de sobreviventes na selva e no mar.

Após a guerra, a Base de Amapá foi desativada e devolvida pelos norte-americanos ao governo brasileiro em 1946, sendo ocupada pelo Ministério da Aeronáutica, que ali instalou um destacamento. Teve outros usos, como o funcionamento de uma Escola de Iniciação Agrícola. De acordo com as informações obtidas na pesquisa, a Base de Amapá foi fechada entre os anos 1960-1970, permanecendo em uso apenas o aeroporto por algum tempo, principalmente pelo Correio Aéreo Nacional. Atualmente, o aeroporto está desativado. 

A Base de Amapá caiu no esquecimento das autoridades, entrando em um processo de abandono e desmonte - muitas edificações foram desmontadas por moradores locais, tijolo por tijolo, telha por telha. Hoje se vê muitos pisos espalhados por sua imensa área - 6.198.000 m². Além do aeroporto, restaram alguns alojamentos ocupados pela Aeronáutica e por posseiros. Outros ainda sofrem a ação do tempo e do descaso.

O fato mais significativo ocorrido na Base Aérea de Amapá no pós-guerra, foi a passagem do ex-presidente argentino Juan Domingo Perón, em novembro de 1955. A caminho do exílio, o avião que conduzia Perón pousou para ser abastecido.

Torre de atracação de blimps (zepelins).
Foto: Aloisio Cantuária, em 14/08/2011 11:55

Ainda hoje podem ser observados vestígios da presença norte-americana naquele local. O mais representativo é a torre de atracação de zepelins (foto acima), próxima do aeroporto, bastante deteriorada pela ação do tempo e do descaso. Ainda estão de pé o terminal do aeroporto, instalações de suporte como Casa de Força e Farol, dois alojamentos reformados para uso da Aeronáutica e Infraero (um deles com sua frente descaracterizada), outros alojamentos deteriorados e ocupados por posseiros, edificações em ruínas, pisos de alojamentos e outras instalações, carcaças de veículos e tratores. A pista de pouso usada pelos aviões americanos está sem seu revestimento original de asfalto e concreto.

Prédio do Museu a Céu Aberto da 2a. Guerra Mundial
Foto: Aloisio Cantuária. Em: 14/08/2011 11:29

Uma das instalações que ainda está de pé é o prédio onde funciona, precariamente, o Museu da Base Aérea (foto acima). O prédio foi recuperado para esse fim no final dos anos 1990.

No final dos anos 1990 teve início uma operação de recuperação da antiga base aérea, visando sua transformação em Museu a Céu Aberto da Segunda Guerra Mundial. Para esse fim, foi criada (1997) a Gerência do "Projeto de Transformação da Base Aérea em Museu" no governo Alberto Capiberibe. O Museu, entretanto, não chegou a ser criado. A gerência do projeto, tendo à frente o idealizador do Museu, senhor Alfredo Oliveira (1921-2009), conhecido por Cabo Alfredo, tomou várias medidas de recuperação, como limpeza, capina, pintura, identificação das instalações através de placas, construção de uma pousada e implantação de curso de inglês para alunos atuarem como guia de turistas.

Alfredo Oliveira tentou também, levantar documentos relacionados com a história da Base Aérea de Amapá, realizando várias viagens nesse sentido, peregrinando por outras bases (Belém e Natal), ministérios, indo até embaixada dos Estados Unidos, mas pouco resultado obteve. Acreditamos que a dificuldade de obtenção dessa documentação está relacionada com o fato de que a Base de Aérea de Amapá era uma base americana, construída e administrada pelos norte-americanos. Apenas depois da guerra a base de Amapá passou para a administração brasileira, através do Ministério da Aeronáutica. Na antiga base aérea americana em Amapá, o que ainda pode ser encontrado são seus vestígios, repesentados pelos restos de suas edificações. E histórias de objetos enterrados.

O fenômeno administrativo conhecido como "descontinuidade administrativa" também manifestou-se vigorosamente na gerência do Museu da Base Aérea de Amapá, causando nova situação de abandono a partir de 2003 e a perda de todo o trabalho de recuperação realizado pelo Cabo Alfredo. A antiga base está num estado de total abandono, dificultando o trabalho de qualquer pesquisador. O governo atual tenta recuperar a antiga base americana, recriando o Projeto de Transformação da Base em Museu. As iniciativas ainda são tímidas.

A história da Base Aérea de Amapá é tema de minha monografia para obtenção de graduação no curso de História da Universidade Federal do Pará. O objetivo do blog é reunir informações que possam contribuir para a construção da história da Base Aérea de Amapá.

É uma tarefa árdua, em razão da dificuldade de obtenção de fontes que fundamentem a pesquisa, considerando-se que parte da documentação relativa à Base se extraviou, foi destruída ou se encontra perdido nos arquivos de alguma instituição, inclusive nos Estados Unidos.

Em muitos momentos da pesquisa, principalmente nos iniciais, nos defrontamos com obstáculos na busca de informações, situação essa já vivenciada por outros pesquisadores, como o historiador inglês Edward P. Thompson. Thompson assim comenta suas dificuldades no "Prefácio" de Senhores e Caçadores (2ª ed., Paz e Terra, 1997, p.16): "Senti-me como um pára-quedista aterrissado em território desconhecido: inicialmente conhecendo apenas algumas centenas de metros em torno, e gradualmente estendendo minhas explorações a cada direção".

Para Marc Bloch (Apologia da História, Zahar, 2001, p.82), "reunir os documentos que estima necessários é uma das tarefas mais difíceis do historiador".  Tentando nos confortar diante das dificuldades, Bloch (Op. cit., p.83), propõe que elas são, ao mesmo tempo, instigantes: "O espetáculo da busca, com seus sucessos e reveses, raramente entedia. É o tudo pronto que espalha o gelo e o tédio".

Observando os vestígios da antiga base aérea americana em Amapá, representados pela torre de atracação de zepelins, a afirmação de Fustel de Coulange assume, mais do nunca, sua atualidade: "Onde o homem passou, onde deixou qualquer marca da sua vida e da sua inteligência, aí está a História". ("Une Leçon d'Ouverture et quelques fragments inedits de Fustel de Coulange". Revue de Synthèe Historique, II/3, nº 6, 1901, p.245)